Gondufo - Um paraíso esquecido na Serra do Açor

4. - CURIOSIDADES

4.1. - População de Gondufo no século XVI

Em 1527, existiam no Gondufo 7 fogos, enquanto a Vide tinha 9 e a Barriosa apenas 3.

4.2. - Padre do Gondufo

No Gondufo viveu o Padre Manuel, que tendo nascido na Borracheira, estudou no Piódão e exerceu a sua vida eclesiástica na Teixeira.

4.3. - Parteiras do Povo

Existiam “duas parteiras” na aldeia, a Tia Ana do Cabeço (Ana Francisca) e Tia Carolina Augusta.

A Tia Ana do Cabeço era uma mulher viúva, desde muito jovem que vendia ovos na Covilhã, calcorreando a serra a pé apesar da presença constante de lobos, para criar os seus 2 filhos e ainda disponibilizava tempo, saber, dedicação e coragem para socorrer, nos momentos difíceis do parto, as mulheres da aldeia. Manteve sempre uma ligação maternal com as crianças da terra, facto que se notava nas suas palavras ternas e no modo como acariciava os cabelos dos miúdos que se cruzavam no seu caminho.

4.4. - Como os homens fugiam da guerra

Os homens para não irem para a guerra, ao terem conhecimento da presença de elementos da G.N.R., que os procurava, fugiam para os montes e aguardavam o sinal da aldeia (determinada peça de roupa estendida na varanda), para regressarem a casa, ou escondiam-se no esconderijo existente por baixo da lareira, com era o caso do Ti Joaquim Feiteira da Borracheira.

4.5. - Isenção do pagamento do imposto à Coroa (jugada)

As populações da freguesia de Vide, onde se incluía o Gondufo, ficaram isentas do pagamento do tributo (jugada) à Coroa que, segundo o ensaio monográfico da Vila de Vide, do Sr. António Dias, se deveu a uma visita do Rei D. Dinis a Vide.

Consta-se que D. Dinis, ao passar pela Serra de Balocas, encontrando os pastores de Vide, fingiu ignorar o caminho para a vila e pediu que lhe ensinassem o mesmo, viajando incógnito, para melhor escutar o voz do povo.

Chegada a comitiva à vila de Vide, foi o Rei recolhido numa casa da povoação, pertencente a um rico pastor, daqueles que encontrara no caminho. O pastor vivia só na sua pousada e cozinhava as suas refeições.

O monarca não se contentando com o leite que lhe deram, pediu uma perdiz que o pastor tinha caçado no monte. O serrano e bom videense, leal e franco, sem cerimónia, entregou-lhe a ave de penas lustrosas e disse:

«Quem a perdiz quiser comer .... que a depene».

Assim, o Rei, que mostrou ser um soberano à altura, depenou e cozinhou a perdiz e saboreou a sua canja.

No dia seguinte, pronto para seguir para Coimbra, agradeceu deste modo ao seu hospedeiro :

«Rei D. Dinis
Na Vila de Vide
Se perdiz quis
Depenei e fiz
E agora, vilão
Que tiveste o Rei em casa
O que quiseres, diz».

O pastor muito atrapalhado e a gaguejar pediu desculpas e sem saber o que pedir, disse:

- Que hei-de pedir, Senhor meu?

- Pede, repetiu o Rei.

Então que as nossa ovelhas e as nossas vaquinhas, de Seixos Alvos para dentro, não paguem jugada.

E assim ficaram isentos do pagamento do referido tributo.

4.6. - Os Barbeiros

O Barbeiro do Gondufo (Manuel de Sousa), do qual pouco se sabe, viveu no Povo, na Casa do Quintal, e consta que apresentava um diploma passado por um cirurgião. Era tio (irmão do pai) de Ana Francisca (uma das parteiras do Gondufo).

O Barbeiro de Baloquinhas (João Augusto Brandão) substituía o médico e o enfermeiro, que não existiam nos arredores, com tal mestria que era solicitado por todas as aldeias da freguesia e a provar os seus méritos está a afirmação do Dr. Martins de Santa Ovaia – “Se adoecer, não chamarei qualquer colega, pois apenas quero o João Brandão à cabeceira”. O referido João Brandão foi substituído, nas suas funções pelo seu conterrâneo Manuel da Graça que, segundo consta, recebia um alqueire de milho por ano, pago por cada família que a ele recorria.

4.7. - Povoações que integram a freguesia de Vide:

Abitureira, Baiol, Balocas, Baloquinhas, Barreira, Barriosa, Barroco da Malhada, Carvalhinho, Casal do Rei, Casas Figueiras, Chão Cimeiro, Cide, Costeiras, Coucedeira, Fontes do Cide, Foz da Regueira, Foz do Vale, Frádigas, Gondufo, Levadas, Malhada das Cilhas, Monteiros, Muro, Obra, Outeiro, Ribeira de Balocas, Rodeado, Silvadal e Vide.

4.8. - O número 3

O Gondufo possui um conjunto de factores ligados ao número três:

O Cabeço de Gondufo é o ponto de união de:

  • 3 Regiões - Beira Alta, Beira Baixa e Beira Litoral;
  • 3 Distritos – Guarda, Coimbra e Castelo Branco;
  • 3 Concelhos – Seia, Arganil e Covilhã;
  • 3 Freguesias – Vide, Piódão e Sobral de S. Miguel;
  • 3 Aldeias – Gondufo, Chãs D’Égua e Malhada-Chã;
  • Outros factores :

  • 3 eclesiásticos (pessoas que foram influentes na região);
  • 3 Capelas (Gondufo, Baloquinhas e Chãs D’Égua;
  • 3 Santos venerados (Santo Evaristo, Senhora das Dores e Santa Bárbara).
  • 4.9. - Ditados populares

    Ai de ti Portugal
    Se não vierem 3 cheias
    Antes do dia de Natal.

    Deitar cedo
    E cedo erguer
    Dá saúde
    E faz crescer.

    Não há sábado sem sol
    Nem Domingo sem missa.

    Dia de nevoeiro
    Dia de soalheiro.

    A cama que fizeres
    Nela te hás-de deitar.

    Filho és
    pai serás
    Como fizeres
    Assim terás.

    Nunca o invejoso medrou
    Nem quem ao pé dele morou.

    4.10. – Carreira Vide - Coimbra

    Após a ligação de Vide a Coimbra por estrada e tendo em vista servir as populações com um meio de transporte mais económico, foi adquirida uma camioneta de passageiros, que utilizava o carvão como combustível, pela “Sociedade” formada por três elementos da Freguesia de Vide, José Gramaça (mais conhecido por Taberneiro), António Pedro e o Prof. Nobre, os dois primeiros eram naturais e residentes em Gondufo e o terceiro era, como todos sabemos, de Vide.

    Assim deram o primeiro passo para a futura carreira Vide - Coimbra que, durante muitos anos, era o meio de transporte usado por quase todos aqueles que se dirigiam para a Cidade ou para o estrangeiro e no regresso à terra natal.